Um dia, de repente, era tudo asfalto.
Dizem que começou porque a prefeitura errou a mão quando foi tapar um buraco, daí o negócio tomou vida própria. Os cientistas tinham avisado: "o piche é o bicho". Ninguém ligou e tudo - de repente! - virou rua.
A lojinha da esquina que tava prestes a fechar não conseguiu nem declarar falência, e o asfalto lacrou suas portas pra sempre.
"Pelo menos, agora, os carros e as motos podem também se movimentar pelas paredes, o que vai fazer um bem danado pro trânsito", disse o governador antes da estrada passar por cima do seu palácio e arruinar a grife da sua filha.
Alguns, pouco importantes e muito otimistas, disseram: "finalmente! Agora, como nós, ninguém tem nada!"; mais que mesquinharia, sentiam justiça.
Outros cavavam. Quando as pás e picaretas eram engolidas pelo chão, quebravam unhas e dentes pra recuperar o que a pista tinha clamado pra si. Muitos morreram.
Os que sobreviveram não recuperaram nada mas estavam mudados. Não falavam, mas conseguiam andar. Às vezes corriam, e ninguém entendia por quê.
Os despossuídos foram os que mais estranharam. "Que gente estranha", diziam. "Só porque perderam, acham que nunca mais vão ganhar?". Tinham pena, e um mais misericordioso foi tentar conversar.
Vidro e Diamante
Gênio.
Minha pele é água que eu não mergulho.
Meu corpo é orgulho e fogo.
Antes de ir embora, minha alma cantava.
Numa noite quente,
tudo incomodava
e de dentro de mim ouvi:
"Vazio em mim,
enche-me de desejo, amor e
sonhos.
Estrague o meu sono, mas não
me impeça de dormir.
Mata a estrela que me habita:
é buraco negro.
Meu corpo é orgulho e fogo.
Antes de ir embora, minha alma cantava.
Numa noite quente,
tudo incomodava
e de dentro de mim ouvi:
"Vazio em mim,
enche-me de desejo, amor e
sonhos.
Estrague o meu sono, mas não
me impeça de dormir.
Mata a estrela que me habita:
é buraco negro.
TeleV
a pose,
o local de trabalho,
as redes de me-distraio,
o Mozart atrás dos ouvidos,
o zumbido depois
do baile. A ganja
e a injeção,
o gemido, a ternura.
Telas.
-
eu não desligo a televisão.
aqui fora tem corrupção, inflação, depressão, morte
mas eu ensurdeci meus olhos
para tudo que a tela-terra-chão
não dá.
só lá eu posso ver
morte,
corrupção, investimentos, desejo,
outras fábulas.
o local de trabalho,
as redes de me-distraio,
o Mozart atrás dos ouvidos,
o zumbido depois
do baile. A ganja
e a injeção,
o gemido, a ternura.
Telas.
-
eu não desligo a televisão.
aqui fora tem corrupção, inflação, depressão, morte
mas eu ensurdeci meus olhos
para tudo que a tela-terra-chão
não dá.
só lá eu posso ver
morte,
corrupção, investimentos, desejo,
outras fábulas.
Falta
Inspira.
A paisagem é bonita,
a viagem tranquila.
O caminho é conhecido
e o amor do mundo é genuíno.
Expira.
O vidro está manchado.
O motorista está estressado
e ontem não foi um dia bom.
Inspira.
O céu limpo deixa tudo bonito,
e o desencanto tem uma certa magia.
Tudo em volta tem uma história pra contar.
Expira.
Qual a minha história?
Eu me importo de verdade?
Inspira.
O brilho dos corpos é honesto
e o meu olho não mente.
Expira.
Amigos são aqueles que não se importam se te odeiam.
Inspira.
Há muito futuro.
Expira.
A paisagem é bonita,
a viagem tranquila.
O caminho é conhecido
e o amor do mundo é genuíno.
Expira.
O vidro está manchado.
O motorista está estressado
e ontem não foi um dia bom.
Inspira.
O céu limpo deixa tudo bonito,
e o desencanto tem uma certa magia.
Tudo em volta tem uma história pra contar.
Expira.
Qual a minha história?
Eu me importo de verdade?
Inspira.
O brilho dos corpos é honesto
e o meu olho não mente.
Expira.
Amigos são aqueles que não se importam se te odeiam.
Inspira.
Há muito futuro.
Expira.
Expresso
gotas de gente
percorrem meu corpo
como suor, mas não
refrescam.
memórias de diferentes
rostos e feições
disputam: foi felicidade
ou nervosismo?
um milhão de vezes analiso
e finalmente neutralizo
qualquer sinceridade
nunca esferas, quero
caixas retilíneas e
confiáveis que eu
possa empilhar
de mil maneiras confortáveis
nunca alma; quero
gente matematicamente
construída que me traga
a calma de um resultado
indubitavelmente correto
daí, dentro de mim,
construo essa casa
monocromática: da cor
do papelão que embala
cada operação básica
da vida até que
interpretá-las se torne
uma rotina automática
percorrem meu corpo
como suor, mas não
refrescam.
memórias de diferentes
rostos e feições
disputam: foi felicidade
ou nervosismo?
um milhão de vezes analiso
e finalmente neutralizo
qualquer sinceridade
nunca esferas, quero
caixas retilíneas e
confiáveis que eu
possa empilhar
de mil maneiras confortáveis
nunca alma; quero
gente matematicamente
construída que me traga
a calma de um resultado
indubitavelmente correto
daí, dentro de mim,
construo essa casa
monocromática: da cor
do papelão que embala
cada operação básica
da vida até que
interpretá-las se torne
uma rotina automática
Podre
- Truco!
- Ah, vai te catar, Moisés. Cê pegou carta que eu vi.
- Vai ou não vai?
- Tá um lixo isso aqui.
Silvia joga as duas cartas que tem na mão em cima do baralho e começa a misturar pra partida seguinte.
- Cê tem que parar de roubar, hein, Moisés.
- E você tem que parar de ser pata. Nunca vi.
Silvia para de repente. Parece estar prestando atenção em alguma coisa. Dá pra ouvir um som abafado que parece um miado. Não parece ninguém que eu conheço.
- Que é, desistiu foi?
- Cala a boca, Moisés. Teu filho tá chorando.
Silvia procura a criança entre os cobertores, onde tinha deixado pra dormir horas antes. Acha a cabecinha frágil dele e, com cuidado, levanta-o até o peito e dá-lhe de mamar.
- O Luquinha tava com fome é? - diz Moisés, procurando alguma coisa ao seu redor. - E não é que eu tô também?
Sem achar nada, o homem levanta-se, se apoia num poste queimado e grita para toda a praça:
- Cadê meu cachimbo? Quem foi o filho da puta?
Sai empurrando e chutando todo mundo que ele vê deitado, perguntando da droga dele. Eu não gosto desse escarcéu, então decido ir me entreter em outro lugar, até ver também se acho alguma coisa pra comer. Ando entre uns edredons manchados até a luz mais próxima.
Estou à procura de algum dos bares cujos donos gostam de mim. Coisa mais fácil do mundo é conseguir comida: só precisa miar com jeitinho e olhar com uma cara de coitado. E eu não sou que nem os gatos mimados que só comem onde tem vigilância sanitária, o que facilita bastante.
O barzinho de esquina que tem os donos legais está fechado. Acabo indo para um boteco que é próximo. Encontro uma meia dúzia de homem pingado, que parecem que têm mais cachaça do que sangue no corpo. Assim que eu entro, o dono taca água em mim. Mesmo assim eu não desisto. Volto orgulhoso e miando alto. Pelo menos assim eu encho o saco deles.
Quando um bêbado levanta da mesa e vem na minha direção querendo jogar cerveja, eu ralo pata dali. Vou para o próximo.
Logo ali ao lado, uma mulher está limpando mesas, todas vazias. Não parece estar fazendo um trabalho muito meticuloso, pois algumas das que ela passa o pano molhado continuam com marcas de sujeira recente. Enquanto ando pelo bar minhas patas ficam meio grudentas, e o azulejo está marcado por sujeira seca do dia anterior.
Um homem de meia-idade, magrelo e com o cabelo grisalho, me observa com a cara amarrada de trás do balcão.
- Olha esse filho da puta aí, vai querer comida. - ele diz, cheio de marra.
- Ah, ele é bonitinho. E é o nosso primeiro cliente de hoje, pai. Acho que a gente tinha que dar alguma coisa pra ele sim. Dá um croquete ou sei lá. - enquanto ela diz isso, recolhe os produtos de limpeza de cima de uma mesa de bilhar quebrada que está encostada na parede.
- Gato não gosta de croquete, de coxinha. Gato gosta de peixe. - correção: gato gosta de qualquer coisa que encha o bucho.
- Dá peixe, então.
- Não tem peixe.
- Então dá um salgado, ué.
Eu solto o miado mais bonitinho que consigo.
O homem coloca pedaços de croquete e coxinha, picotados, num prato de plástico e vai dar a volta no balcão para deixar o prato no chão.
- Pai, deixa ele comer aqui dentro, tá frio lá fora.
O senhor tira sarro:
- Ah, vou aproveitar e comprar um pacote de vinte quilo de ração de gato pra dar pra qualquer bicho de rua que passar aqui. Quer saber? Vou comprar de cachorro também. E um pouquinho de alpiste pra dar pros pombo que passam aqui na frente de dia. - Amarra a cara. - Ah, faça-me o favor, né, Kelly?
A moça olha com raiva pro pai.
Quando o homem deixa o pratinho do lado de fora, a sua perna passa bem perto de mim. Por um momento eu fico aterrorizado, achando que ele ia me dar uma bicuda. Lembro da noite anterior. Meu corpo fica todo arrepiado, e eu congelo. Só volto pro presente quando a minha barriga ronca.
Assinar:
Comentários (Atom)