Podre

- Truco!
- Ah, vai te catar, Moisés. Cê pegou carta que eu vi.
- Vai ou não vai?
- Tá um lixo isso aqui.
Silvia joga as duas cartas que tem na mão em cima do baralho e começa a misturar pra partida seguinte.
- Cê tem que parar de roubar, hein, Moisés.
- E você tem que parar de ser pata. Nunca vi.
Silvia para de repente. Parece estar prestando atenção em alguma coisa. Dá pra ouvir um som abafado que parece um miado. Não parece ninguém que eu conheço.
- Que é, desistiu foi?
- Cala a boca, Moisés. Teu filho tá chorando.
Silvia procura a criança entre os cobertores, onde tinha deixado pra dormir horas antes. Acha a cabecinha frágil dele e, com cuidado, levanta-o até o peito e dá-lhe de mamar.
- O Luquinha tava com fome é?  - diz Moisés, procurando alguma coisa ao seu redor. - E não é que eu tô também?
Sem achar nada, o homem levanta-se, se apoia num poste queimado e grita para toda a praça:
- Cadê meu cachimbo? Quem foi o filho da puta?
Sai empurrando e chutando todo mundo que ele vê deitado, perguntando da droga dele. Eu não gosto desse escarcéu, então decido ir me entreter em outro lugar, até ver também se acho alguma coisa pra comer. Ando entre uns edredons manchados até a luz mais próxima.
Estou à procura de algum dos bares cujos donos gostam de mim. Coisa mais fácil do mundo é conseguir comida: só precisa miar com jeitinho e olhar com uma cara de coitado. E eu não sou que nem os gatos mimados que só comem onde tem vigilância sanitária, o que facilita bastante.
O barzinho de esquina que tem os donos legais está fechado. Acabo indo para um boteco que é próximo. Encontro uma meia dúzia de homem pingado, que parecem que têm mais cachaça do que sangue no corpo. Assim que eu entro, o dono taca água em mim. Mesmo assim eu não desisto. Volto orgulhoso e miando alto. Pelo menos assim eu encho o saco deles. 
Quando um bêbado levanta da mesa e vem na minha direção querendo jogar cerveja, eu ralo pata dali. Vou para o próximo.
Logo ali ao lado, uma mulher está limpando mesas, todas vazias. Não parece estar fazendo um trabalho muito meticuloso, pois algumas das que ela passa o pano molhado continuam com marcas de sujeira recente. Enquanto ando pelo bar minhas patas ficam meio grudentas, e o azulejo está marcado por sujeira seca do dia anterior. 
Um homem de meia-idade, magrelo e com o cabelo grisalho, me observa com a cara amarrada de trás do balcão.
- Olha esse filho da puta aí, vai querer comida. - ele diz, cheio de marra.
- Ah, ele é bonitinho. E é o nosso primeiro cliente de hoje, pai. Acho que a gente tinha que dar alguma coisa pra ele sim. Dá um croquete ou sei lá. - enquanto ela diz isso, recolhe os produtos de limpeza de cima de uma mesa de bilhar quebrada que está encostada na parede.
- Gato não gosta de croquete, de coxinha. Gato gosta de peixe. - correção: gato gosta de qualquer coisa que encha o bucho.
- Dá peixe, então.
- Não tem peixe.
- Então dá um salgado, ué.
Eu solto o miado mais bonitinho que consigo.
O homem coloca pedaços de croquete e coxinha, picotados, num prato de plástico e vai dar a volta no balcão para deixar o prato no chão.
- Pai, deixa ele comer aqui dentro, tá frio lá fora.
O senhor tira sarro:
- Ah, vou aproveitar e comprar um pacote de vinte quilo de ração de gato pra dar pra qualquer bicho de rua que passar aqui. Quer saber? Vou comprar de cachorro também. E um pouquinho de alpiste pra dar pros pombo que passam aqui na frente de dia. - Amarra a cara. - Ah, faça-me o favor, né, Kelly? 
A moça olha com raiva pro pai.
Quando o homem deixa o pratinho do lado de fora, a sua perna passa bem perto de mim. Por um momento eu fico aterrorizado, achando que ele ia me dar uma bicuda. Lembro da noite anterior. Meu corpo fica todo arrepiado, e eu congelo. Só volto pro presente quando a minha barriga ronca.

Comendo, eu fico mais tranquilo, mas não quero ficar muito tempo naquele bar. Nada garante que o dono não vai fazer nada comigo se eu demorar. Do jeito que ele respondeu ele podia ser tão escroto quanto os caras de uniforme de ontem à noite.
Eles tinham chegado na praça vestindo tudo a mesma roupa escura e fazendo um monte de pergunta, falando que iam tirar cobertor e comida de todo mundo. E ainda teve o Jonas. Parecia um psicopata. Só saiu do carro pra me dar um chute e ouvir meu miado de dor e de raiva. Eu lembro que, depois de apanhar, eu fugi até um cantinho escuro. Vi que o que tinha me batido tava olhando em volta, tentando me achar, mas sem sucesso. O cara que tava com ele até falou: 
“Cê não vai cismar no gatinho, né, Jonas?”
“Nah, quem liga pra esses porra?”
“Mas é que aí é maldade, deixa o bicho. Não fez nada pra você.”
Outro que tinha o mesmo uniforme tava segurando um casal contra o carro de onde o Jonas tinha saído. Os dois que estavam detidos claramente tinham acabado de acordar.
O uniformizado falou “Vai ficar usando, filho da puta?” e deu um tapa na cara do homem, que estava com o pescoço pressionado por um cacetete.
Ele empurrou a mulher e ameaçou de todo tipo de coisa, segurando a virilha dele umas vezes enquanto falava. Daí pegou a pistola que tinha na cintura e mirou.
Os dois tiros que ele deu para o alto deixaram tudo em silêncio de repente.
“Tamo avisando vocês.” - ele gritou pra que todo mundo ouvisse. “Se não ralar peito todo mundo, amanhã a gente volta e é pra esculachar de verdade.” Depois jogou os dois no chão e entrou no carro.
Os outros entraram também e o resto dos uniformizados que tinha vindo com eles começou a ir embora. Eu saí do meu canto quando a coisa ficou mais tranquila e fui pra perto do casal que também tinha apanhado. Descobri que eles tinham um filhinho chamado Lucas, e que ele se chamava Moisés, ela Silvia. Aprendi também que a Silvia sempre falava o nome do Moisés quando conversava com ele. 
Eles não me deram carinho mas também não me espantaram pra longe. Dormi perto do bebê naquela noite. Era bom ter um pouco de companhia.
Sinto um gosto esquisito de repente.

Olho e vejo umas coisas pretas no meio da comida. Parece coisa morta, com gosto de sangue passado. Tem umas bolinhas que tinha nos pedaços do croquete. É pedaço de mosca morta.
Dou um miado pra dentro, inconformado, e saio rapidinho da varanda daquele bar maldito. Não quero mais saber de mendigar janta praquele bando de mal-amado.
Volto para perto do meu casal favorito e o Moisés já estava de volta. Parece tranquilo, como se finalmente fosse dormir. Eu não vi eles descansando desde que conheci eles ontem à noite. 
O Lucas ainda está com a boca no peito da Silvia, mas não parece acordado. O bebê descansa em um braço e com a outra mão a Silvia segura um cachimbo que parece ser de vidro. Sai fumaça da boca dela de vez em quando, mas ela não parece estar muito consciente do que está acontecendo.
- Ô Moisés. Ô Moisés - ela balbucia, tentando chamar a atenção do marido.
- Falaô. Que que é? - sua voz também está embargada.
- A gente precisa ir embora, Moisés.
- Tá bom, pode ir.
- A gente precisa ir junto, Moisés.
- Eu não vou não.
- Mas o Lucas, Moisés - Silvia parece paranoica. A voz dela começa a ficar mais acelerada. - Eles falaram que ia voltar, e cê conhece a raça. Vão fazer a gente de brinquedo, vão até matar, não sei, mas a gente não pode ficar mais.
- Se cê tá tão preocupada então dá pra eles que eles vão tudo embora.
Entre lágrimas que rapidamente se formam em seu rosto, Silvia grita:
- Vai tomar no seu cu, Moisés.
O bebê começa a chorar. Ela se levanta com o filho, arruma a blusa e sai andando.
- Filho de uma puta, é tudo filho da puta, eu vou arrumar minha vida com esse moleque e vocês vão ficar tudo pra trás, seu bando de cuzão do caralho, quero ver vocês se fodendo, tomara que eles enfiem a arma no cu de vocês… - ela despeja enquanto vai embora.
Entre as pernas dela, passa um ratinho cinza e horrendo. Ela nem percebe e segue, sem rumo.
A fome dirige minha atenção para o rato. Ele está correndo pelos corpos deitados na praça, indo até um arbusto baixo que tem ali. Vou andando devagar na direção do arbusto. Na minha cabeça já estou jantando ele, me deliciando com a carne macia daquele monstrinho.
Procuro pelo cheiro dele. Uma mistura de xixi com lixo parado (também não entendo por que é tão delicioso). Vejo o rabinho dele entre os galhos do arbusto. Avanço com tudo e o bicho corre para perto de uma árvore. A raíz dela é daquelas expostas pra fora do chão, formando uma espécie de labirinto. Fico rodeando a árvore, esperando ele aparecer. 
Ouço a pata dele quebrando uma folha seca. Ele está perto de uma parte da raíz que forma uma cerca dos dois lados. Chance mais perfeita que esta, pra mim, não tem.
Ele me vê e procura em volta por saídas, desesperado. Começa a correr em círculos. 
O que eu mais gosto é quando eles sabem que não vão conseguir fugir. Esse rato tá completamente na mira, indefeso. A não ser que ele aprenda a voar, é todo meu.
Eu vou devagar, saboreando o medo dele e antecipando a minha janta.
Ouço atrás de mim, de repente, várias portas de carro batendo. Me assusto e, por uma fração de segundo, fico desatento e o rato passa entre as minhas patas.
- A gente avisou, não avisou? - diz o cara que tinha batido no Moisés ontem.
As dezenas de pessoas que estavam deitadas no chão começam a se levantar, assustadas, correndo com o que conseguiam carregar: cobertores rasgados, algumas roupas e pedras de crack enfiadas nos bolsos.
- Agora não adianta né? - o homem que chamara a atenção do Jonas quando ele me chutou agora está segurando um pedaço de madeira. Dá pancadas nas pernas de algumas das pessoas que correm, fazendo-as cair no chão. Continua batendo nelas, dando chutes e desferindo mais cassetadas.
O rato passa do lado dele e eu vou atrás.
Reconheço a voz do Jonas:
- Olha só esse filho da puta. Será que é o mesmo de ontem? Parece. - tenta me acertar com um cassetete mas eu sou mais rápido desta vez.
Continuo perseguindo o rato ao mesmo tempo em que fujo dos homens. Eles não estão mais de uniforme.
Vejo o monstrinho embaixo de uma lixeira. Ele está preso num chiclete. Eu tenho que pegar o rato logo, antes que o Jonas me ache e o bichinho fuja de vez.
- Aaaaai! Silvia, sua puta, sai daqui!
Era a voz de Moisés.
- Que Silvia o que, irmão? É Vitor, beleza, queridão?
Vitor puxa Moisés pelo cabelo. O pai do Lucas está desnorteado mas lentamente parece entender o que está acontecendo, acordando de vez. Seus olhos denunciam desespero.
- Tá com medo, é? Relaxa que você não vai sentir nada, não. - o homem coloca a mão na cintura, procurando algo sem tirar os olhos dos de Moisés.
Corro para o rato preso e mordo o pescoço dele para que não consiga mais fugir. O negócio se debate na minha boca mas depois fica tranquilo, imóvel. Corro pra debaixo da caçamba de lixo da prefeitura.
Ouço o barulho de um tiro.
- Porra, aí cê fode a gente, Vitor. - Jonas comenta, indignado.
Os homens de ontem e os amigos deles voltam para os carros. Têm pressa.
Vitor cospe no rosto vazio do Moisés e se junta ao resto, largando o seu corpo inerte no chão.
Eu abro a carne do ratinho com meus dentes e começo a comer.
Para esta noite, pelo menos, eu tenho uma janta.

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