Um dia, de repente, era tudo asfalto.
Dizem que começou porque a prefeitura errou a mão quando foi tapar um buraco, daí o negócio tomou vida própria. Os cientistas tinham avisado: "o piche é o bicho". Ninguém ligou e tudo - de repente! - virou rua.
A lojinha da esquina que tava prestes a fechar não conseguiu nem declarar falência, e o asfalto lacrou suas portas pra sempre.
"Pelo menos, agora, os carros e as motos podem também se movimentar pelas paredes, o que vai fazer um bem danado pro trânsito", disse o governador antes da estrada passar por cima do seu palácio e arruinar a grife da sua filha.
Alguns, pouco importantes e muito otimistas, disseram: "finalmente! Agora, como nós, ninguém tem nada!"; mais que mesquinharia, sentiam justiça.
Outros cavavam. Quando as pás e picaretas eram engolidas pelo chão, quebravam unhas e dentes pra recuperar o que a pista tinha clamado pra si. Muitos morreram.
Os que sobreviveram não recuperaram nada mas estavam mudados. Não falavam, mas conseguiam andar. Às vezes corriam, e ninguém entendia por quê.
Os despossuídos foram os que mais estranharam. "Que gente estranha", diziam. "Só porque perderam, acham que nunca mais vão ganhar?". Tinham pena, e um mais misericordioso foi tentar conversar.
"Irmãos", disse, e quando pronunciou essa palavra esquecida, o mundo inteiro parou.
Olhavam pra ele.
"Agora que tudo é nada, e nada é tudo que temos,"
Ninguém ouvia, ou pelo menos não se importava.
"Sejamos o infinito, o universo!"
Quem nada tinha aplaudiu por cinco segundos, e daí começou a carnificina.
Ao que tudo indica, as pessoas-asfalto não eram surdas (só não queriam ouvir). Daí, quando alguém ousou falar, enfezaram-se. Sem ferramentas nem armas - lembra que foi tudo pro subsolo? - esganavam, chutavam, mordiam.
Depois de cobrir os jardins, as praças, as escolas, os hospitais, as casas, os bares, os museus, as bibliotecas, os parques, os cinemas, os teatros e a lojinha do começo, o pavimento percebeu que ainda tinha coisa sobrando. Com a ajuda dos cavadores, foi tomando também as pessoas, e a violência finalmente acabou.
Pelo que eu sei, é por isso que agora todos estamos debaixo da terra, e lá em cima tudo é asfalto.
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