Mais um Domingo

Um dia, de repente, era tudo asfalto.
Dizem que começou porque a prefeitura errou a mão quando foi tapar um buraco, daí o negócio tomou vida própria. Os cientistas tinham avisado: "o piche é o bicho". Ninguém ligou e tudo - de repente! - virou rua.
A lojinha da esquina que tava prestes a fechar não conseguiu nem declarar falência, e o asfalto lacrou suas portas pra sempre.
"Pelo menos, agora, os carros e as motos podem também se movimentar pelas paredes, o que vai fazer um bem danado pro trânsito", disse o governador antes da estrada passar por cima do seu palácio e arruinar a grife da sua filha.
Alguns, pouco importantes e muito otimistas, disseram: "finalmente! Agora, como nós, ninguém tem nada!"; mais que mesquinharia, sentiam justiça.
Outros cavavam. Quando as pás e picaretas eram engolidas pelo chão, quebravam unhas e dentes pra recuperar o que a pista tinha clamado pra si. Muitos morreram.
Os que sobreviveram não recuperaram nada mas estavam mudados. Não falavam, mas conseguiam andar. Às vezes corriam, e ninguém entendia por quê.
Os despossuídos foram os que mais estranharam. "Que gente estranha", diziam. "Só porque perderam, acham que nunca mais vão ganhar?". Tinham pena, e um mais misericordioso foi tentar conversar.

Gênio.

Minha pele é água que eu não mergulho.
Meu corpo é orgulho e fogo.
Antes de ir embora, minha alma cantava.
Numa noite quente,
tudo incomodava
e de dentro de mim ouvi:

"Vazio em mim,
enche-me de desejo, amor e
sonhos.
Estrague o meu sono, mas não
me impeça de dormir.
Mata a estrela que me habita:
é buraco negro.